O Brasil chegou a 81,7 milhões de inadimplentes em março de 2026, o equivalente a 43,74% da população adulta, segundo o Mapa de Inadimplência da Serasa Experian. É o maior número já registrado na série histórica da instituição. O cartão de crédito lidera as causas do endividamento, presente em 69% dos casos, seguido de empréstimos pessoais (56%) e cheque especial (31%).
Diante desse cenário, renegociar dívidas deixou de ser exceção e virou rotina para grande parte dos brasileiros. Existem hoje pelo menos três caminhos possíveis: negociar direto com o credor privado, recorrer a programas do governo como o Desenrola Brasil, ou, no caso de dívidas ativas com a União, acionar a transação tributária da Receita Federal. Neste guia, você entende cada um deles e quando vale a pena ir além da renegociação pontual.
Sim. Renegociar uma dívida significa firmar um novo acordo de pagamento com o credor, seja ele um banco, uma financeira ou o próprio governo. Na prática, o contrato antigo é substituído por um novo, com prazo, taxa ou desconto diferentes.
Essa possibilidade existe tanto para dívidas com instituições privadas quanto para débitos com a Receita Federal, cada uma com regras próprias. A escolha do caminho certo depende do tipo de dívida, do valor em aberto e da sua capacidade de pagamento.
Quem tem débitos tributários em aberto pode recorrer ao programa de transação tributária da Receita Federal. A modalidade é voltada a casos específicos, e não a qualquer tipo de dívida com o Fisco.
Podem pedir a renegociação os contribuintes que têm dívidas de até 60 salários mínimos (as chamadas dívidas de pequeno valor), débitos classificados como créditos tributários irrecuperáveis, ou que se encaixem na transação individual proposta pelo contribuinte, prevista na Portaria RFB nº 208/2022.
O processo é feito de forma digital, pelo Portal e-CAC, com conta gov.br em nível prata ou ouro. Dentro do portal, o contribuinte acessa a Área de Concentração de Serviço, seleciona a modalidade de transação tributária adequada ao seu caso e segue o preenchimento das informações e a assinatura do acordo.
Para empréstimos pessoais, consignados ou financiamentos, o primeiro passo é sempre contatar a instituição credora pelos canais oficiais, como aplicativo, telefone ou agência.
Nessa conversa, o objetivo é entender o valor atualizado da dívida, com juros e encargos, e comparar com o que você pode efetivamente pagar. Antes de aceitar qualquer proposta, vale simular as novas condições e verificar o Custo Efetivo Total (CET), já que um prazo mais longo pode esconder um custo total mais alto.
Renegociar traz vantagens que vão além do alívio imediato na parcela. Entre elas estão sair da lista de inadimplentes do SPC e da Serasa, interromper o efeito bola de neve dos juros compostos e, em muitos casos, trocar uma dívida cara por outra mais barata.
Essa troca de dívida também pode ser feita entre instituições diferentes, pela portabilidade de crédito. Criada em 2013 pelo Banco Central, ela permite que outro banco assuma o saldo devedor em condições melhores, sem custo para quem contrata.
O Desenrola Brasil é um programa do governo federal que permite renegociar dívidas com descontos de até 90%. A primeira edição, entre 2023 e 2024, permitiu que 12 milhões de brasileiros renegociassem R$ 35,6 bilhões em dívidas, segundo dados da Agência Brasil.
Em maio de 2026, o governo lançou o Novo Desenrola Brasil, dividido em quatro frentes: Desenrola Famílias, Desenrola Fies, Desenrola Empreendedor e Desenrola Rural. O módulo Famílias é o mais usado por pessoas físicas.
Para participar do Desenrola Famílias, é necessário ter renda de até 5 salários mínimos (R$ 8.105 em 2026), contratos firmados até 31 de janeiro de 2026 e inadimplência entre 91 dias e 2 anos. O teto para o novo crédito é de R$ 15 mil por CPF em cada instituição financeira.
Os descontos variam entre 30% e 90% sobre o valor total da dívida. O consumidor também pode usar até 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1.000 como entrada, e o novo contrato tem taxa máxima de 1,99% ao mês, com prazo de pagamento de até 4 anos.
Um dado chama atenção no perfil de quem busca renegociação: os jovens. Segundo levantamento da Serasa, pessoas entre 18 e 25 anos foram o grupo que mais cresceu nas renegociações de dívidas no país em 2025, com alta de 49% em relação ao ano anterior. Mais de 1,5 milhão de jovens dessa faixa etária negociaram pendências apenas nos primeiros sete meses do ano.
Ao mesmo tempo, o crédito também chega mais rápido a esse público. As solicitações de cartão de crédito cresceram 111% no país, com mais de um terço dos pedidos vindo de jovens entre 20 e 29 anos, ainda de acordo com a Serasa.
"A relação dos brasileiros com o crédito está passando por uma transformação silenciosa, e ela tem rosto jovem [...] a Geração Z demonstra menos resistência em buscar renegociação e soluções online."
Lucas Ortega, líder comercial do Bari
Essa maior disposição para negociar é positiva, mas reforça um ponto central da educação financeira: renegociar sem planejamento tende a repetir o ciclo de endividamento. É por isso que, para dívidas maiores ou espalhadas entre vários credores, vale considerar uma solução mais estrutural.
O Desenrola Brasil e a renegociação direta com o banco funcionam bem para dívidas pontuais e dentro dos limites de cada programa. O problema aparece quando o consumidor tem várias dívidas, com credores e taxas diferentes, e o teto ou os critérios dos programas não cobrem o valor total.
Nesse cenário, o empréstimo com garantia de imóvel tem ganhado força no Brasil como estratégia de reorganização financeira. Segundo dados da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), a modalidade registrou mais de 4 mil novas operações em março de 2026, alta de 40,1% frente a fevereiro e de 34,3% em relação a março de 2025, somando R$ 1,3 bilhão em volume financeiro no mês.
"Cerca de 70% dos clientes procuram novos empréstimos no Banco Bari justamente para quitar débitos anteriores. Modalidades com garantia de imóvel oferecem juros menores e prazos mais longos, substituindo taxas que podem superar 400% ao ano como o rotativo do cartão. Ressalta Lucas Ortega"
Dados internos do Bari mostram que, nos últimos dois anos, cerca de 60% dos consumidores que buscam a modalidade tinham como principal objetivo quitar dívidas mais caras. O crédito permite acessar até 60% do valor de avaliação do imóvel, com o proprietário mantendo posse e uso normal do bem durante todo o contrato.
Para quem quer entender a fundo como funciona esse processo de unificar várias dívidas em uma só parcela, vale conferir o nosso guia completo de consolidação de dívidas, que detalha taxas, prazos e o passo a passo da operação.
Trocar boletos avulsos e juros que superam 400% ao ano por uma única parcela previsível não é fugir da dívida, é transformar o crédito em uma ferramenta de conquista, e não em um peso que se arrasta por anos.
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Quem tem dívida com a Receita Federal pode negociar em quantas vezes?
Depende da modalidade de transação tributária escolhida, que define condições de entrada e parcelamento próprias conforme a Portaria RFB nº 208/2022.
Renegociar dívida suja o nome de novo?
Não, ao assinar o novo acordo o contrato antigo é extinto e as pendências anteriores deixam de existir, desde que as novas parcelas sejam pagas em dia.
Quem tem várias dívidas pode juntar tudo em um único empréstimo?
Sim, o empréstimo com garantia de imóvel permite unificar dívidas de cartão, cheque especial e empréstimos pessoais em uma parcela só, com juros bem menores.
Vale a pena renegociar mesmo com juros mais baixos hoje?
Sim, interromper os juros compostos de uma dívida em atraso evita que o valor continue crescendo mês a mês, independente da taxa básica da economia.